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Há mais para além do que os olhos conseguem ver.
Luisa Cunha
Entrada Gratuita
Luisa.
“Outra exposição!?” ouve-se na entrada do espaço do CAV. Um dispositivo sonoro de uma simplicidade desar- mante ocupa visualmente um espaço que é preenchido, em incomparável métrica, por esse desabafo: entre a ir- ritação, o desespero e a surpresa, somos recebidos na ambivalência flutuante que palavras e a sua entoação recorrentemente criam nas obras de Luisa Cunha.
Minimal nos seus recursos, esta é uma obra que se desdobra pelo som, a imagem fotográfica e em movi- mento, a escultura e a instalação e, em determinados momentos só diferidamente presentes nesta exposição, pela performance.
Estar aqui, ser aqui: quase tudo se mede pelo corpo
da artista e pelo seu campo de visão. O retângulo vermelho que também nos recebe é uma alusão à sua presença conceptualizada. As imagens tipográficas são auto-retratos in absentia quer numa dimensão mais pri- vada (selfies), quer profissional (datas de exposições).
No longo corredor do CAV, duas linhas em formulações diferenciadas: uma, Linha#1, 2002, consiste num texto reproduzido em hipnótica (quase xamânica!) repetição: “os saltos dos meus sapatos têm 5 cm de altura e estando de pé esta é a linha ao longo da qual escrevo com menor esforço escrever ao longo desta linha é
escrever ao longo desta linha tudo o que escrevesse acima ou abaixo desta linha não era escrever nesta linha”. A peça (nessa dimensão performática a que aludi anteriormente) é realizada pela artista nos espaços que escolhe ou que lhe são propostos, sendo que normal- mente tem sido apresentada a fechar a quadratura de salas. Aqui, a dimensão linear, mais de trinta metros, confere-lhe uma distensão perturbadora, onde o esfor- ço de concentração (no fazer e no apreender) nos suga precisamente para aquilo que seria impossível estar para além da linha (o acima e o abaixo). É a afirmação daquilo a que um dia Álvaro Lapa chamou a “arte da recusa”. Auto-explicativa, esta é uma viagem visual e conceptual que se define pela sua precisão, ainda que longe de qualquer automatismo artificial, como agora tanto discutimos, porque ancorada precisamente num corpo, na sua fisicalidade motriz e na ideação de uma perceção dirigida. Nada se acrescenta àquele mantra. Não é sujeito a interpretação, é o que é.
Na obra que se colocou à sua frente, Sem título (Ho- menagem a Isabel Mendes), um díptico de 2014, umas palavras-linha-horizonte descrevem a dificuldade de apreensão de uma paisagem em movimento que, como tal, se define essencialmente a partir da disjunção entre céu e terra. As palavras enquanto hipótese performáti- ca de um eco paisagístico.
Estar aqui, ser aqui: território, imagem e pensamento. “Mulher de 58 anos aos 2 anos” de 2009 é uma série de oito fotografias que constitui uma das mais pungen- tes afirmações sobre o estatuto equívoco da imagem fotográfica enquanto afirmação verista. Aqui, um texto manuscrito evoca a rememoração do visionamento
de fotografias de infância em diversos momentos e situações tão vividamente recordados quanto a sua descrição parece apontar: “fotografia de mulher de
58 anos aos 2 anos rindo escondida por detrás do cortinado transparente”, lê-se numa delas. O que prevalecerá nessa memória? A textura do cortinado?
O cheiro doméstico? A sonoridade do riso? A aventura de estar escondida? Tudo isso pode conter a frase escrita. E tudo isso, e mais (acima e abaixo, para contra- por à rigidez inflexível da Linha) pode ser apreendido
pelo observador que em empático jogo de memória
se poderá lembrar de situações semelhantes na sua própria infância. Já “R/C”, 2016 é uma imagem/texto mais específica. Aqui ancora-se o texto nesta pertença telúrica, onde o estar se mede pelo espaço de liberda- de raso, de segurança tanto física como emocional. A memória enquanto espaço-outro que nos dá chão para o presente.
Um presente onde não observamos porque queremos ver e nos impedem de o fazer: “Field of View” de 2010 é uma peça sonora onde uma voz pede educadamente a alguém para se desviar para poder olhar qualquer coisa: lembro-me imediatamente daquele frequentador de inaugurações de croquete em riste que se põe à frente das obras de arte…
Estar aqui, ser aqui: há também uma nostalgia de futuro em acontecimentos tão simples quanto desconcertan- tes. A montra tapada com papel transparente (numa fase inicial pensei que esta era uma imagem das costas de uma obra de arte) em “I’ll be back”. Uma cidade que foi para ser outra coisa qualquer. Também em “Mir- ror#3”, 2002-2003 e “Gritaria”, 1998-2023 se abordam questões que têm que ver com a mutabilidade de uma cidade que deixa de se reconhecer por abdicar de valores tão básicos como a pertença e solidariedade.
Retratos de medição física, política e social. Auto-re- tratos de/na ausência. “02.13” de 2018 é a obra mais enigmática da exposição. Uma toalha pendurada e um cabide vazio. Extraordinário como dois simples objetos conseguem uma reverberação ecoante de um senti- mento que toca tão impressivamente o indizível do que nenhum de nós quer nomear. E assim se torna imagem perpétua.
Miguel von Hafe Pérez
(texto da folha de sala)
Patente até 8 de Março de 2026.
De terça a domingo | 14h – 19h
Entrada Gratuita