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Cosmocópula
Andreia Santana
Entrada Gratuita
Das políticas do corpo/imagem
O pensamento plástico de Andreia Santana tem vindo a desenvolver-se a partir de uma matriz de investigação sobre contextos específicos onde a questão da memória dos materiais se assumiu de forma preponderante: a sua prática define-se a partir de processos que tanto podem remeter para o estudo de arquivos históricos (onde a musealização e a catalogação se erigem enquanto elementos diferenciadores da não anonimidade dos mais díspares elementos que povoam este planeta), como para
uma demanda dos processos mais ou menos ancestrais da criação de objetos através de preceitos próprios (do ferro ao vidro, por exemplo).
Mais recentemente, os seus projetos têm vindo a assumir um caráter menos contextual, para estabelecer uma relação mais direta com aquilo que a define enquanto
ser atuante num universo trespassado por inquietações sociais e políticas. O corpo (as suas representações, os seus adereços, as suas normativas divergentes) e as coisas (objetos mais ou menos literais, excrescências significantes ou alegorias de diversa índole) povoam uma matriz referencial onde o feminismo e as suas reverbera- ções exultam uma possibilidade de afirmação positiva e atuante.
Na presente exposição, a apropriação do título de um poema de Natália Correia é todo um manifesto libertário:
(…).
Andreia Santana recupera o erotismo e a sexualidade latente nas palavras da poeta e ensaísta para sublinhar a perda civilizacional que hoje em dia representa a au- to-censura politicamente correta que grande parte dos autores sobre si exercem.
Num universo onde algoritmos controlam o que se pode ou não publicar, a coragem de quem enfrentava uma di- tadura política e mesmo assim não se calava merece ser sempre relembrada e repensada. Natália é um monumen- to à afirmação da mulher-natureza, esse enorme magma telúrico que define o orgulho na sua identidade social, política e sexual, sempre na possibilidade da máxima incongruência para atingir a máxima plenitude e intempo- ralidade. Numa entrevista em 1983 refere explicitamente: “[…] a mulher deve seguir as suas próprias tendências
culturais, que estão intimamente ligadas ao paradigma da Grande Mãe, que é a grande reserva, a eterna reserva da Natureza, precisamente para as impor ao mundo ou pelo menos para as introduzir no ritmo das sociedades como uma saída indispensável para os graves problemas que temos e que foram criados pelas racionalidades masculinas. É no paradigma da Grande Mãe que vejo a fonte cultural da mulher; por isso lhe chamo matrismo e não feminismo.”
A artista sabe que os tempos são outros. Quando inicia o processo desta exposição relembra o dia em que Natália
Correia destemidamente recebe Cicciolina no Parlamento português. Relembra igualmente uma pintura atribuída à poeta que reproduz corpos – um, feminino, proeminente, deitados num chão de deleite. Este é um dos motivos
de um dos quadros-escultura que Andreia Santana apresenta: uma rede, aqui retícula transgressora da visão, define contornos sem perspetiva, num plano/plenitude erotizados.
Noutra, uma figura feminina com as suas ligas e minissaia (reminiscentes da imagem de Cicciolina?) confrontam o conservadorismo do olhar patriarcal para demarcar um território transgressivo e empoderado. A manipulação assertiva do tema da representação feminina (convencio- nalmente praticada por homens na história da arte) para a representação de outrem ou para a autorrepresen- tação é, aqui, sinónimo de provocação consciente. Os pequenos quadros-escultura onde se apresenta nua são interrogações vitais sobre o nosso olhar (cúmplice ou judicativo?). A fluidez da imagem, novamente reticulada, é a fluidez de uma sexualidade que não se deixa captar na imagem limpa, na precisão vouyeurística.
A utilização da rede é algo que a artista tem vindo a desenvolver em vários projetos, sendo que a sua inter- pretação tanto pode apontar para um mecanismo de defesa do corpo, como contraponto à opacidade dos materiais convencionalmente utilizados no minimalismo, por exemplo, onde peso, estrutura e colocação definiam a sua receção. Aqui a transparência é simultaneamen-
te protetora e provocadora. Daí também o recorrente
recurso ao vidro, enquanto matéria mais orgânica que refere modos de fazer artesanais mais associados à sensibilidade feminina. Sublinhe-se, contudo, que nestas obras essa sensibilidade é propositadamente traiçoeira: tal como numa piñata, para se aceder ao brinde ter-se-ia de destruir o invólucro.
A nudez é, então, uma estratégia de disrupção política, num período em que a sociedade paradoxalmente se tor- nou mais púdica nas suas representações, mas consome pornografia como nunca antes. O corpo como meio de dissolução de binarismos conservadores, o corpo como discurso crítico.
Andreia Santana é uma voz sem dono, é um corpo que nos questiona, questionando-se.
Miguel von Hafe Pérez
(texto da folha de sala)
Patente até 8 de Março de 2026.
De terça a domingo | 14h – 19h
Entrada Gratuita